Havíamos feito divulgação o dia todo de uma peça que apresentaríamos naquela noite. Geralmente quando iríamos fazer divulgação, a gente ficava o tempo todo na rua principal da cidade, entregando os panfletos vestidos de palhaço.
A divulgação acabou, fomos pra Urca (o nome do principal teatro de Poços de Caldas) e antes de nos trocarmos, eu percebi que estava faltando a meia-calça de uma personagem minha. Então a gente resolveu aproveitar que estávamos maquiados e que a cidade tava cheia e saímos daquele jeito mesmo. Eu, Biel e Felipe, vestidos de palhaços pra ir comprar meia calça!
Então, estávamos nós andando pela rua da praça, quando um grupo de quatro meninas vieram em nossa direção. Ao passar pela gente, uma delas empurrou a que estava do seu lado pra cima de mim. Tipo aquela brincadeira de adolescente bobo que não tem o que fazer. Eu me viro pra trás e já mando:
- Gente bonita nunca mexe com a gente! Só gente feia!
- É, mas pelo menos eu não sou um palhaço! - respondeu a menina.
- Mas o detalhe querida é que eu lavo, e sai! - e passei a mão na frente do rosto.
A menina fechou a cara, e ficou completamente abalada. Ela era negra.
Eu, Biel e Felipe, ou melhor, Pichayn, Keysclown e Chapa continuaram seu caminho, e as quatro meninas vieram atrás da gente soltando todo tipo de impropério que conheciam. Nós não ligamos e continuamos nosso trajeto.
Chegamos na loja, comprei a meia-calça e saímos pra ir embora. Durante o caminho encontramos de novo com duas das meninas que nos param:
-Qual o seu nome? - a menina perguntou.
- Pichayn!
-O de verdade.
- Pichayn! - eu não saio da personagem!
- Então tá, só pra te dizer que minha amiga ligou pra Polícia e te denunciou por racismo!
- Ah é? Nossa! To tremendo de medo! - dei risada, meus amigos também e fomos embora pra casa.
Durante o caminho a gente brincou com a idéia d'eu ser preso, quando chegamos na casa do Biel onde a gente se arrumava, brincamos de novo! E até a Vivi (mãe do Biel e dona da companhia de teatro) me abraçou e disse que me visitaria na cadeia.
Eu já estava sem maquiagem e só com a roupa do palhaço quando o telefone da Vivi toca:
- Oi... sim ele tá aqui!.... Como assim Deco?!... Por nada!.... uhn... uhn.... Coooomo prender? Ele me contou a história, essa vaca que provocou eles!.... Uuhn.... tão na Urca? Não, eu desço com ele! Não vão prender o menino por causa disso!
Eu ouvia o telefonema e o tom da minha pele foi ganhando um ligeiro tom esverdeado.
- Tá, segura eles aí... O pai da menina também? Tá bom... a gente tá descendo. Átila, a menina te denunciou mesmo pra polícia e estão lá na Urca, ela com o pai, e tão querendo te prender.... mas calma, calma... O Deco (marido dela e que fazia a iluminação das peças) tá conversando com eles, mas vamos lá que a gente tem que resolver isso.
Nem a roupa eu troquei, fui vestido de palhaço junto com a Vivi pro teatro. No caminho íamos conversando, mas meu estômago girava à 360º.
Na porta da Urca estava, uma viatura com dois policiais (um negro pra ajudar), a menina, o pai e as três amigas. Assim que chegamos a Vivi foi pra cima do pai da garota:
- ELE NÃO FEZ ISSO, SUA FILHA QUE COMEÇOU! ELE SÃO SERIA CAPAZ.... O Deco foi puxando a Vivi pra dentro do teatro.
- Olha... - comecei. - Eu só quero saber...
- MENTIROSAAAAAAA! - a Vivi gritou lá de dentro.
A vontade de rir veio na boca, mas eu precisava me manter sério... E meu estômago tratava de me ajudar.
- Olha, eu não sei o que sua filha disse mas...
- Olha só rapaz - o homem veio colocando o dedo no meu peito. - O que você fez com minha filha...
- Ei, ei, ei, vamos parar. - O policial interviu. - Olha a menina já nos contou a versão dela, você pode nos contar a sua.
Então eu contei tudo o que tinha acontecido, e toda a vez o homem olhava pra filha e perguntava se era verdade e ela se calava. Principalmente na parte do empurrão, e de terem nos seguido chingando. No fim ele disse:
- Bom, a versão da minha filha é diferente... Você provocou ele Naiane? - A menina se calou.
- E foi isso que aconteceu, eu em nenhum momento fui preconceituoso. Na verdade quem me desrespeitou no trabalho foi ela!
- Tá, tudo bem. Mas você disse que pra minha filha que a cor da pele dela não saía!
- Não! Eu disse que eu lavava e a minha maquiagem saía! Foi o que eu disse...
- Mas chamando ela de feia...
- Mas ela não é bonita mesmo! - ele me olhou feio - Digo, desculpa, bem... Mas eu não fui racista! Como eu seria preconceituoso se eu sou gay?
O homem virou pra filha, e abaixou a cabeça.
- Ok, pelo visto quem tá errado na história não é você né?
Então, o policial rasgou o BO, e eu fui inocentado da acusação de preconceito! Eu entrei na Urca e a Vi perguntou:
- Então Átila, resolvido? Você não vai ser preso né?
- Claro que não! Eu não zoei com a cor da menina, só com a feiura! Até porque não tenho nada contra preto. Digo...
E ainda bem que o policial já tinha ido embora quando eu disse isso.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
Preconceituoso!
Decretado por
tiuℓ
às
21:06
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8 comentários:
A menina deve ter ficado com a cara feia dela no chão.
aoihaihaihihiohaiai
E ainda tomou esporro do pai quando chegou em casa.
aoihaoiiaohaiahiahohaihihaioahiahi
Dá-lhe Tyul!!!
a lerda aqui tava pensando que cê tava chamando a menina de palhaça [que pra você deixar de ser palhaço era só tirar a maquiagem]... sorvete na testa! duh! xD
mas tu também não presta, hein? ^^
uma palavra só: surreal...
e eu que achava que morava entre ogros...
Mas que menina burra também. O que fez ela chamar a polícia sendo que ela que provocou?
Que viagem.
tu é uma onda
;)
Adoreeeeeiiii!!! =D
Fico lendo essas histórias e me dá uma inveja... Eu nunca conseguiria dizer algo assim pra menina... Não tenho coragem.. =/
Me orgasmei de tanto rir...
Melhor do que isso so pao com meleca...
;)
Seu blog é o MELHOR da internet. Sério. De longe!
E sua mãe é uma fofa!
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