domingo, 13 de janeiro de 2008

Ponte - parte 1

Minha mãe morava em Portugal fazia 3 anos. Ela me mandava dinheiro, eu fazia facul, morava sozinho e curtia a V1D4 L0K4!!!!111 (esses 'uns' são de propósito tá? Precisava eu falar?) Eis que no começo, eu me sentia meio nojento e que eu tava abusando da boa vontade da minha mãe, mas não dava mais, não adiantava eu fingir. Eu era viado.

Como eu morava sozinho eu aproveitei tudo o que eu podia e não podia nessa época, mas tudo muito escondido, afinal eu não podia perder meus amigos e minha mãe não podia saber. Mas chegou uma hora que a consciência bateu e eu percebi que de alguma forma eu tinha que ajudar minha mãe. Ela dizia que eu tava gastando demais e que eu tinha que dar um jeito de diminuir as despesas. Então eu arrumei um trampo. Ajudou, mas minha mãe também estava passando por uma fase difícil...
Um grande amigo meu da facul me apresentou seu colega de trampo logo no dia que teve um churras da nossa turma, e esse colega (à partir de agora chamado de Babu) foi pro carne-free também. Ele disse que morava sozinho e que precisava dividir um ap com alguém porque o irmão dele tinha saído e ele não aguentava as despesas sozinho. Fui conhecer o ap no mesmo dia que acabou o churras e super adorei! Gozei litros com o tamanho do ap e na euforia aceitei dividir. Na semana seguinte eu já estava morando com o Babu.
O Babu era um cara legal, mas com sérios problemas de confiança e um pouco depressivo. Quando eu me mudei pro ap, ele já tava numa de se separar da namorada (sim ele é hétero), e aí que eu tive que usar meu espírito rosa pra ajudar ele. Gente, o garoto só usava PRETO! Então eu ajudei ele a dar uma repaginada no visual, apresentei músicas que não fosse só rock pesado e passei a levá-lo nas discotecas. Em casa era tudo ótimo, cada dia um cozinhava, a gente dividia o pc, parecia que a gente se conhecia desde o útero!
A primeira vez que eu fumei maconha foi com ele! A coisa mais engraçada do mundo era ele com os olhos vermelhos andando depressinha e com mania de perseguição, enquanto eu falava com sotaque paulista, e filosofava coisas idiotas e mantinha a calma. Pra quem não se conhecia nós dois viramos os melhores amigos rapidinho. Mas o meu medo era a homofobia dele, um dia a gente cruzou na rua com um amigo de balada, e tinha um boato que o cara tava comendo trava, e o Babu disse:
- Esse é um que não serve mais pra mim, tenho nojo! - Meu estômago revirava, mas me mantinha na minha.

Então em um churrasco ele xonou em uma garota, eu e uma menina nos juntamos e conseguimos que o Babu ficasse com a Ofélia! Eles engrenaram um namoro que era a coisa mais fofa do mundo! Ele sempre muito ciumento, ela sofrendo com isso e eu no meio segurando a barra dos dois.
Eles ficavam em casa, eu me emperiquitava e junto com alguns amigos comecei a ir pra baladas GLS, eu tremia de medo de ser visto pelas pessoas. A cidade pequena, todo mundo falava de todo mundo. Mas mesmo assim fui! Pirei legal e comecei a perceber que não tinha mais volta!
O namoro do Babu e da Ofélia ia de vento em popa.
Eu conheci um rapaz, ele era vendedor de uma loja de coisas místicas, eu ia comprar insenso (tem coisa mais gay?) e ele me atendia. Nossa eu pirava nos olhos dele (já perceberam que eu adoro um olho claro né?!). Consegui o msn dele, fui trocando conversas, saímos juntos e começamos a ficar. Então pra ninguém desconfiar, a gente saía mas dizia que ia encontrar umas garotas que a gente inventou...
O Babu ia trabalhar e o meu carinha ia lá em casa, uma vez o Babu chegou do nada (a sorte é que a gente tava só nos bjos) a gente sentou e fingiu que tava lendo meus livros do Harry Potter! A cara dos dois super vermelha e a boca até inchada! XD

Mas a minha maldita consciencia começou a pesar. Eu já tava indo sempre em buatchs e a qualquer hora alguém poderia chegar no Babu e perguntar se ele era gay, por morar com um gay. Então eu resolvi que ia contar pra ele. Pedi ajuda pra Ofélia, e ela disse que ia preparar terreno, pra ele ficar mais à vontade e aceitar na boa, até porque eu sempre o respeitei.

Porém o Babu passou a me tratar mau da noite pro dia. Mandava palavras atravessadas, fazia comida só pra ele... E se ele me dirigia duas palavras durante um dia todo era muito. Pra ajudar, meu caso com o garoto da loja acabou, e eu fiquei podre. Achou pouco? Minha mãe teve um AVC.

Os dias foram passando e aquela vida maravilhosa tava uma merda. Então em uma conversa com a Ofélia eu descobri que ela não preparou o terreno: ela contou pro Babu que eu era gay. Meu mundo caiu. Os dias que se passaram foram péssimos, ele me tratando mau, minha mãe em fase de recuperação e eu sem saber o que fazer. Depois de dias de silêncio o Babu veio falar comigo:

- Olha Átila, tá difícil as coisas aqui em casa né?
- Pensei que só eu que tinha notado...
- E sua mãe? Como está?
- Melhor, não pode passar nervoso de jeito nenhum, senão pode ter de novo...
- É, eu escutei mesmo uma conversa sua com ela... Então ela não pode passar nervoso né?
- Não.

Depois dessa conversa, de novo vários dias de silêncio. Na facul eu já não rendia mais nada, mas mesmo assim zuava no busão e brincava com o povo, até porque eu nunca fui de demonstrar que tava ruim...

- Átila - o Babu me chamou. - Eu to desempregado. Tu andou vendo que as coisas não estava bem pra mim no trampo, e... bem... pedi demissão.
-Poxa que ruim... e agora?
-Bem, agora que você vai ter que aguentar as pontas né?
- Como assim?
- Olha, sua mãe te manda grana mesmo, você vai pagando o aluguel, as contas...
- Fii, mas meu dinheiro é pra pagar a facul e...
- Ah, você dá um jeito! Acerta suas granas, pára com as baladas que você consegue... Até porque sua mãe não ia gostar nada nada de saber que tem um filho que gosta de dar o cu né?
-...... - eu só tremia por dentro.
- É isso, enquanto eu to sem trampo você vai pagando as contas, beleza?

Eu não sabia o que fazer da minha vida, pegava o dinheiro da faculdade e pagava as contas de casa, além de dar dinheiro pra ele quando ele queria sair com a Ofélia. Ela por sua vez conversava comigo e dizia que estava conversando com o Babu e que ele ia melhorar comigo, mas ela só não sabia o que ele estava fazendo. Essa situação durou mais ou menos uns dois meses eu tirando dinheiro da facul e fazendo a vontade do Babu.
Nesse meio de merda, meu antigo professor de teatro me chamou pra fazer uma peça e voltar com tudo pros palcos, e foi isso que me animou e me deu força de novo. Eu tinha ensaios, me divertia e esquecia um pouco disso, além de fazer amizade com outros gays e passar a me ver não como uma aberração, e sim como uma pessoa normal, que não tinha nada a dever pra ninguém. O diretor do teatro alugou uma casa com quatro quartos e morava só ele e mais um dos atores, a casa tinha um galpão onde a gente ensaiava e onde eu passava os melhores dias da minha vida naquela época desgraçada. O meu diretor do teatro conversava comigo, sem saber o que acontecia, mas sempre me dava conselhos brilhantes.
Então a faculdade entrou em férias e minha mãe não me mandava mais grana pra isso, e assim eu não tinha dinheiro pra sustentar a casa.

-Átila, a coisa tá feia, tá faltando umas coisas na dispensa! Tua mãe não vai gostar de saber que o filho dela tá comendo mal...

Eu me segurava e morria de vontade de dar na cara dele! Mas morria de medo que ele pudesse contar pra minha mãe sobre minha sexualidade. Porém as coisas vão acontecendo, a gente vai levando e chega um dia que não dá (ui) mais...

Depois de um dia inteiro de ensaio e divulgação de peça com cidade lotada em plenas férias de julho eu fui pra casa, todo estourado e com um humor desgraçado. Cheguei e o Babu tava sentando no pc.

-Átila hoje eu to muito afim de comer strogonoff, aquele que vc faz é bom pra caramba!
- Eu não vou fazer porra nenhuma!

O Babu pegou no telefone celular.

- Será que tua mãe tá acordada?
- Ah, eu acho que tá!
- Vai lá cozinhar que é melhor pra você!
- Nem to afim!
- Entao eu vou ligar!
- Vai nada! Você não tem crédito! Aliás, quer ligar pega o meu celular que ele tem!
- Átila. Vai. Cozinhar.
- Babu. Vai. Tomar. No. Cu. (rimou! XD)
- Cara tua mãe...
- Olha nem vem! Porque você pode ligar e falar o que quiser! Porque eu cansei, seu filho de uma puta! Daqui tu não tira mais nada!
- Ah, seu viadinho! Tá pensando que eu quero te comer? É por isso que você veio morar comigo bixinha?
- Olha, nem se você quisesse me DAR, eu não comeria, eu tenho nojo de você!
- Ah é, então vem cá, eu te como então, vem...

E eu virei um murro na cara dele. Com o susto ele virou outro e a gente se pegou de porrada. Eu dei uma joelhada nos bagos dele, corri pro meu quarto e fechei a porta. Enfiei tudo que era meu dentro de duas malas gigantes que eu tinha.
Saí do quarto e não tinha sinal do Babu, andei pela casa recolhendo o que era meu, peguei algumas roupas molhadas que estavam no varal e vesti pois não cabia mais na mala.

Saí de casa sem um puto de dinheiro no bolso. Desci a rua principal da cidade com as duas malas, o rosto inteiro molhado daquele choro misto de raiva e liberdade. Na rua principal todo mundo me olhava com as roupas molhadas e aquelas malas gigantes, gozavam do jeito que eu tava vestido e riam ao me ver passar. Eu não conseguia controlar as malas, pois tremia dos pés à cabeça. As risadas ecoavam no meu ouvido, mas eu nem olhava pro lado.
Foi muito dolorido.

Mas foi a primeira ponte pra minha liberdade.

21 comentários:

Anônimo disse...

Como tem gente podre nesse mundo!
Enfim, importante é que tudo acaba bem, quando termina bem! Parabéns pela força e pela coragem!

;**

Oz disse...

PUTA

QUE

PARIU

Não dá pra história ficar mais interessante que isso! PROSSIGA! PROSSIGA!

Laïse disse...

babu? esse cara é um babuíno, isso sim, porco nojento!

hunft...

Laïse disse...

ele é um goyle...

dé disse...

Digno!
Neste momento da vida do nosso ainda futuro rei, ainda não haviamos nos (re)conhecido assim como nos conehcemos nos dias atuais, sabia deste fato, mas, superficialmente e agora vendo e relembrando percebe - se o quão vil o tal rapaz foi... mas passou... o que passa nos fortifica, e á exemplo molda carater, remonta a indole... nos faz melhor. Parabéns pela superação...

Unknown disse...

Tiulllllllllllllllllllll
mata o FDP!
chantagem violenta o que ele fez...
ridículo!

te amul pra caramba viu!

=****

Anônimo disse...

Nossa cara que barra que vc passou. Vc foi corajoso em ter enfrentado ele, mas pq não tentou fazer isso antes? Medo né? Eu acho que eu também teria.
É uma pena que ainda exista gente desse tipo. Acho que o pior não era ele ser homofóbico,mas sim ser um canalha que quis se aproveitar de um momento de dificuldade da sua parte.
Mas pelo visto, no final deu tudo certo né? Tanto que se nao vc não contaria essas historias hilarias da sua Mamis e não estaria aee na com os lusitanos hehehe.
um dia escreva sobre a reação da sua mamis tb.

p.s: O nariz dele quebrou com o soco que vc deu? Não?... que pena. Mas saiu sangue né? hehe então tá baum.

Letchi disse...

laise, nao ofenda os babuinos, por favor! sao animais de deus! esse filho duma égua chifruda nao merece nem essa comparacao!
desgraçado, extorquindo o guri!
eu cagava a pau um tipo desses!
e vc, parabens mesmo pela superacao! ^^

:***

Anônimo disse...

po, siniiiistro.
mas essas coisas soh fazem a gente crescer.
jah me fudi mt com este tipo de chantagem, de tremer tb.
P.s.1: serah q qndo eu perguntei pras pessoas onde posia achar insenso aki na alemanha, alguem desconfiou de alguma coisa?
P.s.2: opaaaa, eu tenho olhos claros. =D

Louise disse...

Tiul, não consigo pensar em nada nesse momento a não ser no episódio do "nescau". Espero que você escreva sobre isso logo pra eu morrer de rir novamente! hahaha

PS: já reparou que eu também tenho olhos claros, hein, hein? ;P huahuahuahuahua

Nanda Soares® disse...

Se eu encontrar esse cara na rua eu tb posso bater??????

Que imbecil!!!!!!!!

Vinicius Yuri disse...

Se você quiser a gente junta todos os Masters quando você voltar e dá um monte de murro nele.

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Diego disse...

Existem textos, principalmente os grandes *ui*, que você perde o interesse no segundo parágrafo.
Mas gente, os teus me levam até o fim *uii*.. :*

Anônimo disse...

imbecil, o cara é um imbecil.
e você - nossa.

estou realmente orgulhoso de você.

Anônimo disse...

O que esse carinha não faz para comer um cu? Esse jogo de cena foi só uma desculpa para chegar na frase final. Ai, manda um recado para o gato, se joga na biqueira e pega uma bichinha faceira.

Anônimo disse...

Tiul

Te amo!

Anônimo disse...

também te emprestaria todos os meus livros, tiul...
acho que é a melhor coisa que tenho a dizer em um post como esse... [ou então corro o risco de ficar "passional" demais... ^^]

amo!!!
=***

Anônimo disse...

Não tem sensação pior da que quando nos sentimos sozinhos.
Só que tem o fator que vc disse.
Liberdade.
Dói conseguir certas coisas em determinados momentos, mas o jeito como as coisas ocorrem é que nos moldam da forma que somos.
Acha que vc seria a pessoa forte e assumida que é se não tivesse esse cara pra te desafiar e te botar pra baixo?
As coisas não acontecem por acaso amigo.
E fico feliz que vc tenha encontrado seu caminho. =D

Acho válido. ♥

iaiá disse...

tiul,

maior admiração por vc viu?
engraçado..há uns tempos atrás não tinha a mínima paciência pra ler blog, não me interessa a vida alheia...mas sem querer achei o big bosta e rolo de rir com seus comentários... aí entrei aqui, num momento de nada pra fazer...é interessante observar como as pessoas sentem, reagem e muitas vezes se parecem com a gente..
daí que é muito bom esses momentos de virada na vida! mandei meu emprego pro espaço para ir atrás do que quero!
beijos pra vc e continue assim legal pacas! se fosse sua mãe ia ter um super orgulho de vc!

André disse...

putz, q forte tiul..

vou ler a segunda parte

Mosana disse...

Pqp! Nessas horas que a gente vê que cada um carrega sua cruz né?
A vida não foi nada gentil com vc.. espero que hoje em dia seja melhor!
Beijos