Todo mundo estava sorrindo e lembrando de como havia sido o ensaio e a divulgação naquele dia, quando eu gritei o nome do Chris. O diretor das nossas peças de teatro saiu e se surpreendeu comigo na porta da casa dele, com duas malas gigantes.
A Viviane, dona da companhia de teatro me deu um forte abraço e disse que o fazia pela minha mãe. Todo mundo quis escutar a história, mas eu não conseguia contar: a voz simplesmente não saía. Mas pelo menos eu tinha lugar pra ficar.
No dia seguinte, liguei pro meu primo, e ele foi comigo pegar as coisas que eu tinha deixado pra trás. Descemos tudo o que precisava e antes de sair, eu fui até a cozinha, desfiz três comprimidos de Lacto purga em pó, e coloquei no Toddy do Babu. Além de deixar um sofá-cama enorme pra trás. Nos dias que se seguiram eu me regozijei ao saber os efeitos do toddy e por saber que o Babu teve que pagar uma multa pois também decidiu sair e no dia da visita do imobiliário o ap deveria estar vazio, mas lá ficou meu sofá-cama!
O teatro tava indo tudo muito bem e as férias foram ótimas.... Porém foi só acabar que começou tudo. Eu tive que fazer a rematrícula pra faculdade, minha mãe como sempre mandou a grana mas, é sempre tem um "mas", eu estava em dívida com a faculdade e não poderia me rematricular. Mas mesmo assim eu ia nas aulas, porque eu tinha a esperança que eu ia conseguiria pagar a tempo de corrigir tudo. Um mês se passou, e eu ainda não tinha regularizado a minha situação e já tinha enfiado o dinheiro no rabo...
O teatro cada vez mais tomava meu tempo, eu ia cada vez menos pra faculdade e o interesse era cada vez menor. Nesse meio tempo, eu passei a contar pros meus amigos mais íntimos sobre a minha sexualidade, e qual foi minha surpresa todos aceitaram muito bem, até os mais ferrenhos héteros.
Mais um mês se passou, eu tirei fotos pro convite de formatura, havia chamado a Viviane pra ser minha madrinha e minha mãe estava se arrumando em Portugal pra ir pro Brasil me ver recebendo o canudo (ui). Mas eu sabia que estava enganando minha mãe, e todo mundo à minha volta: eu não iria me formar. Sempre que eu falava com minha mãe por telefone, eu mencionava que estava tudo bem, que minhas notas eram boas e tudo mais... realmente fui um covarde e me faltou a coragem de contar tudo o que tinha acontecido e porque eu não estava fazendo o que era suposto.
O Chris começou a desconfiar que tinha algo errado devido ao tanto de vezes que eu faltava, ou que chegava mais cedo em casa por fingir que tinha ido à faculdade, dado uma volta pela cidade e voltado pra casa. Então ele comelou a me ignorar e fingir que eu não morava ali. Então chegou o mês de outubro, eu sentei e conversei com ele e contei tudo o que estava acontecendo. Ele me apoiou e achou que eu não fiz certo. Mas pra não precisar contar à minha mãe sobre minha sexualidade (o que originou toda essa desgraça) eu e ele inventamos uma mentira: Eu ligaria pra minha mãe, e diria que não queria mais fazer a faculdade e que queria ir embora.
E assim eu fiz, liguei disse isso tudo, e claro, minha mãe não aceitou. Chorou, disse que o sonho da vida dela era me ver formado e que eu não estava sendo justo.
O cerco foi apertando e minha mãe percebeu que havia alguma coisa errada. Ela já não confiava em mim, então eu resolvi contar que tinha gasto o dinheiro e por isso não podia voltar pra faculdade. A tristeza na voz da minha mãe foi a pior coisa que eu já senti na vida... ela achava que eu tava metido com drogas e que eu tava usando o dinheiro dessa maneira. Por falta de coragem minha, minha mãe estava pensando que o filho era um monstro.
Então eu liguei pra ela:
-Mãe, eu vou te contar tudo o que está acontecendo. Não hoje, amanhã. Eu vou me preparar e vou te contar tudo.
Então no dia 4 de outubro de 2006, eu fui pra um telefone público, em uma rua bem deserta. Passei o nº e minha mãe ligou. E, por telefone eu contei tudo o que estava acontecendo, desde minha sexualidade até a chantagem. Me assumi, pra minha mãe, por telefone.
A primeira pergunta dela foi "porque vc resolveu ser gay? No que eu errei, porque você seguiu esse caminho?" e foi duro, explicar sem olhar em seus olhos que eu simplesmente era assim. Ela chorou, ficou sem chão, mas antes de desligar me disse:
- Você é meu filho e eu te amo de qualquer jeito.
Aquilo pra mim, valia mais do que qualquer tesouro. Porém ela não recebeu a notícia tão bem e teve um segundo AVC. Mas por força divina, ela ficou poucos dias no hospital, mas precisava de repouso e o médico disse que se ela tivesse alguém da família no Brasil, que fosse ficar com ela, pois não era aconselhável continuar nessa solidão.
Então tentamos correr atrás do tempo perdido, minha mãe falou com o reitor da faculdade e fez o que era possível. Eu falei com o coordenador do curso e tantamos de qualquer forma. Mas eu não poderia me rematricular naquele semestre, e pra completar a minha turma era a última que o curso de matemática duraria 3 anos. Ou seja, se no próximo ano eu quisesse terminar, eu não iria fazer o último semestre, e sim um semestre e meio.
Então minha mãe tomou a sua decisão: "Você vem embora ficar comigo".
Fiquei no Brasil mais um mês, me despedi de todos os amigos, chorei muito ao deixar pessoas que eu realmente amo pra trás. Chorei por deixar uma vida pra trás. Mas um caminho novo seguia-se à minha frente. E isso me fazia sorrir, mesmo que chorando. Apresentei minha última peça e no dia 11 de novembro de 2006 eu tomei a Ponte área pra Portugal.
E essa foi a ponte pra minha liberdade total.
quarta-feira, 16 de janeiro de 2008
Ponte - parte final.
Decretado por
tiuℓ
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19:23
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8 comentários:
Oi Tiul!
Aqui é o Felipe, namorado do Pedro!
Adoro seu blog! =D
Raaacho de rir aqui...
Beijokas!
P.s.: Momento tiete --> Te acho lindooooo! =D
Se você escrevesse sua biografia e publicasse, seria um best-seller.
É isso aí Tiul, com tudo isso que vc contou a gente vê que a verdade é sempre o melhor caminho...
Gosto muito do seu blog.
bjo
ô, menino... o olho encheu d'água aqui... que vontade de te dar um abração bem bem bem bem apertado!!! ^^
=*******
Seu texto e' lindo e cheio de sensibilidade. Fanta'stico.
Gosto do jeito que você escreve e se apresenta. É muito sincero.
Parabéns =)
Nossa esse texto foi sincero mesmo. Meu, que linda sua história cara. Ainda bem que sua mãe aceitou bem. Agora falta vc nos contar sobre o OUTRO lado da ponte, como é a vida ai em Portugal.
Ontem eu até conversei com uma amiga que morou ai em Portugal e lembrei de você. Ela entrou como turista e depois continuou. Como é sua vida ae?
E sua mãe? depois nunca mais passou mal?
Vc consegui arranjar algo pra estudar por ae?
...
Vc não ta afim de casar com uma brasileira pra ela morar aee tb? So pra brincar de engana troxa? ehehehe ... Pelo menos eu tentei. Bjaum
tiul! adorei a historia.. adorei a maneira como vc escreve!
vou dar um jeito d ler td por aqui agora.. hehehehe
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